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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Pesa no bolso (e talvez na sua cabeça)

Casa em cima do morro na enseada do Caixa D'Aço:
construir nesses lugares é difícil
e pode provocar deslizamentos. (Kunimund Krönke Junior)
A construção em áreas de encosta aumenta o custo da obra. O relevo dificulta o transporte de material e o trabalho no local. Segundo o empreiteiro Jarylson Claret, “o caminhão não sobe carregado”. A construtora às vezes também precisa alugar um guincho. De acordo com José Pereira, funcionário de outra empresa, não há como levar as máquinas para o local.

No caso de precipícios, aumenta a quantidade de concreto e ferragens. “Você tem que sustentar a casa no ar”, diz Claret. “Você tem que fazer dois, três andares para estruturar a casa.” Isso aumenta o tempo de execução da obra. Somando a dificuldade de acesso ao local, o custo da mão-de-obra em encostas fica R$ 1.400 mais caro. Segundo estimativa do empreiteiro, o serviço custa, em média, R$ 300 por m2 em terrenos planos.

O Código Florestal Brasileiro (lei nº 4771/65) considera áreas de preservação permanente, entre outras, aquelas onde a encosta tenha mais de 45º de inclinação. Cortar a vegetação apenas com autorização para casos de “utilidade pública ou interesse social” previstos em lei.

De acordo com o geólogo Juarês Aumond, manter a vegetação evita deslizamentos de terra. “As árvores jogam a água das regiões profundas [do solo] para o ar, fixam o solo e suas raízes conduzem até embaixo a água que penetra na superfície do solo.” Quando as árvores são derrubadas, as raízes apodrecem e deixam vazios, que são preenchidos quando chove. Então, a água faz pressão dentro do solo, provocando depois a movimentação da terra. Segundo o geólogo, Esse processo pode demorar, em média, cinco anos depois do corte das árvores.

Para Aumond, a arquitetura e a engenharia devem ser adaptadas ao relevo e não o contrário. “Não se deve ‘cortar’ o terreno [de encosta] porque mexe com o equilíbrio morfogeológico.” 



Briga de canetas

Em 2009, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina aprovou o novo Código Ambiental Estadual (lei nº 14.675/09). Mas o Ministério Público de Santa Catarina entrou com uma ação na justiça contra a lei. O documento não respeita o princípio do Direito em que normas estaduais e municipais devem obedecer a normas federais − no caso, as áreas de preservação permanente estabelecidas pelo Código Florestal Brasileiro. A lei aguarda julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF).

A professora de Direito Ambiental da Universidade Regional de Blumenau (Furb), Noêmia Bohn, admite que o Código Florestal é “bastante restritivo”. Para ela, o problema é não haver explicação técnico-científica para as metragens indicadas no texto. “O governo estadual deveria financiar um grupo de pesquisa científica da Epagri [Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina] e mobilizar a bancada catarinense no Congresso.” Assim, não haveria ‘quebra de hierarquia’ e o problema poderia ser resolvido.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A casa caiu!

Máquina da prefeitura de Porto Belo derruba obra irregular
na praia do Araçá. O dono da casa já tinha sido avisado
e desobedeceu a proibição. (Sec. Mun. Planejamento)
Máquinas da Secretaria Municipal de Planejamento Urbano e Meio Ambiente derrubaram uma obra irregular na praia do Araçá em fevereiro. A casa estava em Área de Preservação Ambiental e o proprietário não cumpriu a ordem de embargo.

De acordo com o secretário Johnson Zunino, o rancho era de um pescador. O novo dono manteve a fachada, mas por dentro colocou azulejo e fez um banheiro na semana antes do Carnaval. Os fiscais notificaram o proprietário, que desrespeitou a proibição e continuou a obra. Ele diz que a construção está naquele local há 40 anos.

Em 2008, a prefeitura de Porto Belo criou a Área de Proteção Ambiental (APA) da Ponta do Araçá. A APA surgiu porque o governo municipal foi condenado pela dragagem sem licença do rio Rebelo. Então, a prefeitura se comprometeu a criar uma unidade de conservação na região do Araçá para compensar o dano ambiental causado.


Segundo a ambientalista Soleci da Silva Ferreira, membro do conselho gestor da APA, os interesses imobiliários na região do Araçá ameaçam a pesca. “As construções vão fechando o costão. Quando os pescadores precisarem voltar a terra em busca de auxílio, não terão por onde passar.” Quase todos os moradores do Araçá vivem da pesca direta ou indiretamente.

A lei 9.985/2000, que regula o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, limita a ocupação humana em áreas de proteção ambiental. Então, qualquer tipo de construção deve ser autorizado pelo Conselho Gestor da APA e seguir as regras do plano de manejo. Esse documento indica o uso do espaço em diferentes partes da APA. No caso da Ponta do Araçá, o plano de manejo ainda não existe.

Segundo o promotor do Ministério Público Federal em Itajaí, Pedro Nicolau Moura Sacco, não se pode intervir nas construções irregulares terminadas antes da criação da APA: “Buscamos impedir as ocupações novas.” Quem constrói em APA se arrisca a ser obrigado pela Justiça a demolir a obra e recuperar a área destruída.


A demolição de obras irregulares também faz parte de um plano de revitalização da cidade. Ano passado, funcionários da Prefeitura já tinham retirado barcos da Praia do Baixio e placas de outros pontos em Porto Belo.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Dinheiro não nasce em árvore, mas água cai do céu

A coleta de água da chuva é o sistema sustentável mais comum em obras nos municípios de Porto Belo, Itapema e Bombinhas. Durante as visitas, todos os engenheiros e arquitetos disseram que a água da chuva é usada na manutenção do condomínio.

A coleta de água da chuva diminui o valor da conta.
Sem o tratamento, serve apenas para regar as plantas,
lavar a calçada e o carro, por exemplo. (
Divulgação/Tigre)
A coleta acontece no telhado, terraços do prédio ou no térreo. Depois vai para uma cisterna. Segundo o engenheiro civil Alessandro Pfitzer, a água é usada geralmente na limpeza do prédio porque não tem tratamento com cloro. De acordo com Olimpio dos Santos, dono de uma construtora, um engenheiro químico precisa ser contratado. Isso deixa o sistema mais caro que pagar o serviço da Companhia Catarinense de Água e Saneamento (Casan).

Segundo estimativa do empreiteiro Jarylson Claret, a construção de um sistema de coleta de água da chuva é cara. Mas, ao longo de três anos, o investimento volta em economia na conta. (Alessandro estima que o condomínio planeje ter entre 20% e 30% de economia.) O custo depende do tamanho do telhado, altura da casa, entre outros detalhes. Claret estima que a partir de R$ 5 mil se pode montar um sistema básico, com um reservatório de 5 mil litros.

Com R$ 500 é possível fazer uma cisterna com a mesma capacidade. Largamente implantado por ONGs internacionais no Nordeste brasileiro, Claret diz que é o “o sistema mais barato que existe”. A água cai do telhado para dentro de um tanque e de lá é retirada com baldes.


Só por garantia

O engenheiro civil Alessandro Pfitzer garante que não faltará água para a manutenção do prédio: “Sempre chove. Vai sempre repor.” Caso o reservatório do condomínio fique vazio, uma boia separa 2 mil litros na caixa d’água. “É difícil chegar nesse tanto, mas está previsto para não terminar.”

Como a água da chuva não substitui totalmente o abastecimento da Casan, é preciso estar ligado à rede. “Passa um período sem chover, por exemplo”, acrescenta o empreiteiro Jarylson Claret. “Aí tem taxa mínima. Mesmo que você tenha uma nascente na sua casa, é obrigado a ter água da Casan.”

De acordo com o gerente regional da Casan em Porto Belo, José Lucas Guerreiro, a empresa tem autonomia para medir o consumo de água em locais abastecidos por nascentes ou poços artesianos e cobrar pelo consumo. A prática tem base na lei 9.443/97, na qual está escrito que “a água é um bem de domínio público”. A taxa é igual à cobrada normalmente, sem sofrer acréscimos. Já a água da chuva não sofre controle.

Veja gráficos com as médias mensais de chuva, segundo o Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

Santo de casa não faz milagre

Dois condomínios na praia de Bombas, em Bombinhas, tratam a água usada. Segundo a arquiteta Luciana Guarienti e o engenheiro Alessandro Pfitzer, mesmo depois do tratamento, a água não serve para o consumo. No prédio que Luciana ajudou a construir, a água é usada nos vasos sanitários. Veja abaixo como o sistema funciona:



Venha cedo porque a água não vai ficar sempre quente!

Os edifícios visitados em Bombinhas usam painéis solares para aquecer a água. O engenheiro civil Alessandro Pfitzer considera o sistema ideal porque, além de o sol ser uma fonte gratuita, “é um investimento que se paga com o tempo”. “Depois de uns 8 ou 10 anos”, completa Amilcar Bogo, arquiteto especialista em sustentabilidade. O sistema de coletores solares economiza entre 50% e 70%, dependendo da hora do dia. “Tem o dia inteiro para aquecer a água,” que, segundo Bogo, pode continuar quente até às 21h.

De acordo com a arquiteta Luciana Guarienti, instalar placas solares só deixa a obra mais cara porque é mais um serviço para ser feito. Apesar disso, a conta de luz vem mais barata porque se usa menos a energia da rede das Centrais Elétricas de Santa Catarina (Celesc). Segundo Amilcar Bogo, a casa ou prédio deve manter um sistema misto − solar/elétrico ou solar/gás − para os dias de tempo fechado.

Esquema simplificado: As placas aquecem a água
quando ela passa. (Reprodução/
blog Lú Moura)
O condomínio que Alessandro ajudou a construir não tem o sistema porque foram colocados relógios individuais de água. “Uma pessoa gasta mais água que a outra. Acaba dando problema depois porque não dá para fazer medição individual. Quando é tudo dividido, o pessoal gasta à vontade. Quando cada um paga o seu, aí economiza bastante”, explica Alessandro.

A água passa por trás dos painéis solares, é aquecida e depois vai para um reservatório. O número de placas é calculado pelo número de moradores e a quantidade de apartamentos e banheiros. Elas devem ficar inclinadas em direção à Linha do Equador, onde a radiação solar é mais forte. Também se usa painéis para transformar o calor do sol em energia elétrica, que fica em uma bateria.

Sol na medida certa

Aproveitar a luz do dia ajuda a economizar com energia elétrica. Uma opção para deixar a parte de dentro da casa mais iluminada é a instalação de uma claraboia, um tipo de janela no alto do prédio ou da casa. “Onde eu mais recebo radiação solar é na minha cobertura”, diz o arquiteto Amilcar Bogo, especialista em sustentabilidade.

A entrada de claridade tem que ser distribuída porque o ambiente esquenta muito quando a luz fica concentrada. Por isso, não se deve usar um vidro totalmente transparente, nem colocar uma claraboia muito grande. “Não preciso de muita área para ter bons níveis de iluminação”, afirma Bogo. “Uma claraboia bem projetada pode trazer uma economia de 80% a 90% com iluminação” e também evita ligar o ar-condicionado, que gasta bastante eletricidade.

A luz do sol bem distribuída deixa o ambiente claro em vez de quente.
(Kunimund Krönke Junior/sxc.hu)
Olhe aonde pisa!

Se você prestar atenção na calçada, vai perceber que já pisou várias vezes em um destes blocos. Talvez até levou uma “lembrancinha” da rua na sola do seu sapato ou tênis. Para o arquiteto Daniel Amorim, “as pessoas ainda costumam jogar chiclete no chão”. Como o doce só sai com lava a jato, que gasta bastante água, o paver pode não merecer o apelido de “sustentável”.

Usado em calçadas e ruas, o paver é um bloco
que deixa a água se infiltrar no solo. 
(sxc.hu)
Para Amilcar Bogo, arquiteto especialista em sustentabilidade, esse tipo de material de construção é, no máximo, “um pouco sustentável”. Isso porque o paver é feito de areia ou misturando algum resíduo que ia ser jogado na natureza ao cimento, que dá resistência e ligação ao bloco e é fabricado a partir da mineração do calcário.

Mas até o concreto não é mais ‘puro’ porque a fabricação já usa resíduos da indústria siderúrgica e cinzas das usinas termelétricas. “É um cimento com pitada de sustentabilidade. Barateia o custo de produção, sem comprometer a qualidade do produto.”

Existe também aquele que não é “nada sustentável”, não só porque gasta muita água na limpeza. “É aquele de concreto, pouco poroso, lisinho”, diz Amilcar Bogo. O paver é bastante usado porque é um bloco poroso, que deixa a água da chuva se infiltrar no solo e ao mesmo tempo tem a resistência para que as pessoas possam pisar nele. Se não for assim, “não mudou nada em relação a qualquer outro bloco de concreto”.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O que se esconde atrás da porta

Arquitetos de construtoras de Bombinhas e Itapema escolheram as esquadrias de alumínio e de PVC sustentáveis porque não deixam o som sair, nem o calor entrar. Assim, o ar-condicionado gasta menos tempo e energia para esfriar o ambiente. A diferença é que a esquadria de PVC suporta vidros mais grossos.


De acordo com o arquiteto especialista em sustentabilidade, Amilcar Bogo, deve-se analisar todo o processo de fabricação. As esquadrias de alumínio são as que consomem mais energia, se comparadas às de madeira e PVC. Tanto que, segundo o arquiteto, hidrelétricas foram construídas só para abastecer fábricas de alumínio. Abrir uma jazida também causa impacto pela destruição das matas.

O caso da madeira vai muito além do gasto de energia. “Extrair madeira, dessa forma predatória como se faz, gera muito mais dano ambiental do que uma jazida de bauxita [matéria-prima do alumínio] que tem uma área limitada na floresta amazônica”, diz o arquiteto.

Além da destruição de florestas e o corte ilegal, muitas vezes existe trabalho escravo ou mal remunerado. O transporte é caro “porque a minha madeira vem lá do Norte”. Já as grandes mineradoras conseguem dar condições de trabalho melhores e fazer um tratamento de efluentes da água do garimpo.
O custo da extração de madeira vai
além do corte de árvores
e de transporte caro. 
(Fabiano Miliorini)

“Agora, a madeira de reflorestamento, com selo de entidade certificadora ou de manejo florestal, tem pouco impacto ambiental e energia incorporada”, afirma Amilcar Bogo. “A tendência é que não tenhamos produtos de origem florestal sem certificado. É a agenda do século 21. Ninguém mais vai permitir isso.”

“Em termos de degradação ambiental e energia incorporada, a esquadria produzida em madeira ilegal talvez se equivale ao PVC.” O cloreto de polivinila (PVC) consome menos energia que o alumínio, mas, para o especialista, não é sustentável porque é um tipo de plástico e devemos evitar derivados de petróleo.

Assim como as de alumínio, esquadrias de PVC podem ser recicladas, mas não são recomendadas só por isso. “O alumínio é reciclável, mas consome dez vezes mais energia que a madeira”, afirma Amilcar Bogo. A energia empregada no processo de fabricação envolve extração, fabricação, transporte e uso do produto.