quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A casa caiu!

Máquina da prefeitura de Porto Belo derruba obra irregular
na praia do Araçá. O dono da casa já tinha sido avisado
e desobedeceu a proibição. (Sec. Mun. Planejamento)
Máquinas da Secretaria Municipal de Planejamento Urbano e Meio Ambiente derrubaram uma obra irregular na praia do Araçá em fevereiro. A casa estava em Área de Preservação Ambiental e o proprietário não cumpriu a ordem de embargo.

De acordo com o secretário Johnson Zunino, o rancho era de um pescador. O novo dono manteve a fachada, mas por dentro colocou azulejo e fez um banheiro na semana antes do Carnaval. Os fiscais notificaram o proprietário, que desrespeitou a proibição e continuou a obra. Ele diz que a construção está naquele local há 40 anos.

Em 2008, a prefeitura de Porto Belo criou a Área de Proteção Ambiental (APA) da Ponta do Araçá. A APA surgiu porque o governo municipal foi condenado pela dragagem sem licença do rio Rebelo. Então, a prefeitura se comprometeu a criar uma unidade de conservação na região do Araçá para compensar o dano ambiental causado.


Segundo a ambientalista Soleci da Silva Ferreira, membro do conselho gestor da APA, os interesses imobiliários na região do Araçá ameaçam a pesca. “As construções vão fechando o costão. Quando os pescadores precisarem voltar a terra em busca de auxílio, não terão por onde passar.” Quase todos os moradores do Araçá vivem da pesca direta ou indiretamente.

A lei 9.985/2000, que regula o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, limita a ocupação humana em áreas de proteção ambiental. Então, qualquer tipo de construção deve ser autorizado pelo Conselho Gestor da APA e seguir as regras do plano de manejo. Esse documento indica o uso do espaço em diferentes partes da APA. No caso da Ponta do Araçá, o plano de manejo ainda não existe.

Segundo o promotor do Ministério Público Federal em Itajaí, Pedro Nicolau Moura Sacco, não se pode intervir nas construções irregulares terminadas antes da criação da APA: “Buscamos impedir as ocupações novas.” Quem constrói em APA se arrisca a ser obrigado pela Justiça a demolir a obra e recuperar a área destruída.


A demolição de obras irregulares também faz parte de um plano de revitalização da cidade. Ano passado, funcionários da Prefeitura já tinham retirado barcos da Praia do Baixio e placas de outros pontos em Porto Belo.

Todos reclamam dos cestos de lixo

Existem 200 cestos de lixo
ao longo dos cerca de 6,6 km de praia
em Porto Belo, uma média aproximada
de um a cada 30 metros.
(Kunimund Kronke Junior)

Basta o sol aparecer para que as pessoas queiram vestir biquínis, maiôs, sungas e bermudas. Junto, levam à praia cadeiras, cangas, guarda-sóis e agora, entre outras coisas, carregam consigo pelo menos uma sacola plástica. O material, que é considerado vilão do meio ambiente pela demora na decomposição (cerca de 400 anos), virou a solução para a coleta de lixo onde faltam lixeiras na praia.





Enquanto percorríamos na manhã do domingo de Carnaval as praias de Porto Belo, do Baixio e do Jet Ski, em Porto Belo, muitos dos entrevistados revelaram que, além do respeito à natureza, trazem as sacolas plásticas de casa porque não encontram cestos de lixo. Ouça os depoimentos:


Maria Cristina Dias, 40, jornalista, Joinville (SC): 


Cláudia, 40, Curitiba (PR):



Patrícia, 28, médica, Florianópolis (SC): 



Alguns entrevistados manifestaram indignação ao relatar a falta de cuidado de outros frequentadores da praia. Saiba o que se faz de errado:


Cátia Canuto, 40, assistente técnico-pedagógica, Itajaí (SC): 


Fabiana Sandri, 41, escritora e empresária, Florianópolis (SC): 


Ingo José Maurici, 52, militar aposentado, Brusque (SC): 


Diante dessa situação, outros, por iniciativa própria, recolhem o lixo espalhado pela praia. Preste atenção às atitudes dos entrevistados:


Natalício Bonetti, aposentado, São José (SC): 



Maria da Graça Ferreira, 53, terapeuta ocupacional, Porto Alegre (RS): 


Mas, ao contrário do que disseram os turistas ouvidos pela reportagem, a maioria dos moradores de Porto Belo entrevistados acusaram a falta de cuidado da maioria dos turistas com o descarte do lixo. Alguns consideram que faltam cestos e garis, enquanto outros “absolveram” os visitantes.


Manoele, 16, balconista, Porto Belo (SC):



Leandro, 19, desempregado, Porto Belo (SC):



José Cardoso, 21, estudante, Porto Belo (SC):



Marcelo, 26, marceneiro, Porto Belo (SC):






O secretário de Planejamento e Ambiente de Porto Belo, Johnson Zunino, informa que existem cerca de 200 cestos de lixo ao longo das praias do município. Desses, 60 estão estragados. A troca está prevista para meados de novembro, como preparação para a temporada.


Limpeza das praias


Uma equipe de cinco pessoas trabalha na limpeza da orla de Porto Belo acompanhada por um trator com reboque. Entre o dia 20 de dezembro e o domingo após o Carnaval, o serviço é feito das 0h até as 7h. Fora da temporada de verão, os sacos plásticos das lixeiras são trocados toda segunda-feira e a limpeza das praias é realizada às sextas, salvo em casos de “sujeira excessiva”, provocada por eventuais ressacas e tempestades. Nesses casos, um caminhão com caçamba e uma retroescavadeira ajudam no serviço, realizado em qualquer dia da semana.


Três funcionários da prefeitura são os encarregados pela limpeza no Araçá. Eles moram na comunidade e executam tarefas diversas na rua e na escola local. Durante o verão, um deles é especialmente designado para cuidar da praia, enquanto no inverno a limpeza é realizada aleatoriamente por qualquer um dos funcionários, conforme a necessidade.


Já nas praias do Caixa D’Aço e Estaleiro, os donos dos barzinhos à beira-mar amontoam o lixo na areia para que o trator da prefeitura faça a coleta duas vezes por semana no verão (geralmente terças e sextas-feiras) e uma vez no inverno. Fora da temporada o dia do recolhimento depende da quantidade de lixo nas outras praias. “Se tem menos sujeira, sobra mais tempo para ir no Caixa D’Aço e no Estaleiro”, informa Carlos Afonso Grauppe, funcionário da secretaria de Transportes, Obras e Serviços Públicos.


Coleta de lixo


Dois caminhões se dividem na coleta de lixo em Porto Belo. Um percorre os bairros Vila Nova, Centro, Araçá e Saco da Encantada, enquanto o outro é responsável pelas localidades do Perequê, Jardim Dourado, Sertão de Santa Luzia, Santa Luzia, Alto Perequê e Praia de Perequê. Cada um deles recolhe entre 6 e 7 toneladas de lixo por dia durante o inverno e 14 durante o verão. A exceção é o bairro Araçá, lugar que, segundo a secretaria, não recebe tantos turistas e por isso a quantidade de três toneladas semanais varia pouco durante o ano. Os horários são baseados na necessidade de coleta de lixo de cada localidade.


A Secretaria de Transportes e Obras orienta os moradores para que:
  • coloquem o lixo nas lixeiras na véspera da coleta porque o caminhão recolhe de madrugada
  • embalem o lixo em sacos pretos. Eles são mais grossos que as sacolas de supermercado. “Senão quando [o gari] levanta o saco, ele rasga com o peso”, esclarece Carlos Afonso.
  • providenciem a colocação de lixeira na residência, se não tiverem um local adequado para o depósito de seu lixo. Assim, evita-se que cachorros e gatos espalhem o lixo pelas ruas.
Confira quando o caminhão passará na região mais próxima*:


Local
Dias da semana
Horário
Temporada de verão
Av. Governador Celso Ramos
e Centro
Diariamente
Após à 1h
Diariamente
Araçá
Terças e sextas
Após às 3h
Dia seguinte ao Jardim Dourado
Vila Nova
Terças, quintas e sábado
Após às 3h
Dia seguinte ao Jardim Dourado
Terças, quintas e sábados
Após às 3h
Dia seguinte ao Jardim Dourado
Av. Hironildo Conceição dos Santos
Segundas, quintas e sábados
Após às 2h
Diariamente
Av. Atílio Fontana
Segundas, quintas e sábados
Após às 2h
Diariamente
Av. Colombo Salles
Segundas, quintas e sábados
Após às 2h
Diariamente
SC-412 (Até o Posto 4 Ilhas)
Segundas, quintas e sábados
Após às 2h
Diariamente
Terças e sextas
Após às 2h
Dia sim, dia não
Alto Perequê
Quartas e sábados
Após às 2h
Dia seguinte ao Jardim Dourado
Santa Luzia
Quartas e sábados
Após às 2h
Dia seguinte ao Jardim Dourado
Quartas e sábados
Após às 2h
Dia seguinte ao Jardim Dourado
SC-412 (Após o Posto 4 Ilhas)
Segundas e quintas
Após às 2h
Diariamente
Praia de Perequê
Segundas e quintas
Após às 2h
Dia seguinte ao Jardim Dourado
*Os moradores do Sertão do Valongo, comunidade quilombola, depositam o lixo doméstico em um mesmo lugar. Quando uma caminhonete da prefeitura leva os funcionários para a região, aproveita-se para transportar o material até o Sertão de Santa Luzia, lugar mais próximo por onde o caminhão de lixo passa.
Fonte: Secretaria Municipal de Transportes e Obras

Moradores do Araçá experimentam serviço de coleta seletiva

A comunidade do Araçá, assim como o município de Porto Belo, testa o serviço de coleta seletiva desde janeiro de 2009. Cerca de 300 residências e todos os comércios do bairro escolheram participar. O mesmo número está cadastrado no Centro, que aos poucos foi sendo atendido desde o começo do ano.


A coleta seletiva também atende 30 residências no bairro Perequê há cerca de um mês. Segundo Marcel Paulino, da cooperativa encarregada pelo serviço, a expansão segue um cronograma e o bairro Vila Nova pode ser o próximo.


Os moradores do Araçá aprovaram o serviço (veja o vídeo) e Marcel está empolgado com a participação dos porto-belenses. “Foi positivo. A consciência ambiental do pessoal de Porto Belo é acima da média, acima dos outros municípios. As pessoas participam, se cadastram. Agem como agentes multiplicadores. Um chama o outro.”


Na avaliação da assessora de imprensa da prefeitura, Mariana Ferrary, a aceitação da comunidade do Araçá surpreendeu porque o lugar tem fama de ser pouco receptivo a propostas que não venham dos próprios moradores. “O Araçá é uma comunidade unida. Basta um comprar a ideia para todos fazerem também.”


Interessados, inclusive de outras regiões da cidade, podem se cadastrar pelo e-mail coopervatcoletaseletiva@gmail.com, na Secretaria Municipal de Turismo e nos supermercados Costa Esmeralda e Junior. Marcel Paulino distribui panfletos para orientar os moradores cadastrados. Talvez haja divulgação da coleta seletiva em 2011. Todo o material é doado por uma empresa de embalagens, parceira da cooperativa.


Segundo a prefeitura de Porto Belo, antes deste projeto piloto não existia coleta seletiva, mas alguns catadores se encarregavam do trabalho. Eles são poucos no município e costumam trabalhar nos bairros Perequê e Vila Nova. De acordo com Marcel Paulino, da cooperativa encarregada pelo serviço, poucos catadores vão para o Centro e o Araçá por causa do trânsito.


A coleta seletiva prioriza o centro do bairro Araçá, onde está a maior parte das residências. O caminhão recolhe o lixo reciclável no Estaleiro só durante a temporada, quando aparece um ponto de coleta no final da rua.


Trabalho cigano


Desde o começo do ano o material reciclável é separado em um galpão no bairro Alto Perequê. Em novembro de 2009, moradores do bairro Vila Nova incendiaram um galpão no bairro porque não concordavam com o tratamento do lixo no local. Então, a cooperativa fez o serviço provisoriamente em Tijucas.


A instalação do espaço em Porto Belo é fundamental para a ampliação do serviço. “Podemos oferecer mais oportunidades de emprego e, com a chegada dos equipamentos, melhores preços às empresas que compram o material reciclável”, explica Marcel Paulino.




Reciclar é mais do que decorar as cores das lixeiras


Em diversos lugares é possível encontrar lixeiras coloridas. Essas cores nos indicam em qual dos cestos jogar cada tipo de material reciclável. Mas, na coleta do lixo doméstico, normalmente o material não fica separado dentro do caminhão, segundo o professor de Educação Ambiental da Univali, José Matarezi. “Não necessariamente precisa decorar as cores dos cestos de lixo. Basta saber separar o orgânico (também chamado de úmido) do inorgânico (seco).”


De acordo com o professor, podemos aprender a técnica correta e enterrar o lixo orgânico no quintal. Devemos também reduzir o consumo para diminuir a quantidade de lixo. Se não der, “escolha produtos que não venham com tanto plástico ou papel na embalagem”, por exemplo.


Não é preciso se lembrar das cores. Em casa,
basta separar o lixo orgânico do inorgânico. (sxc.hu)

Educação ambiental dentro da realidade dos alunos

As apostilas fazem parte de uma coleção
que também fala sobre educação para o trânsito,
empreendedorismo e turismo. (
Divulgação/Editora Opet)

Pela primeira vez, alunos da rede pública municipal de Porto Belo usaram apostilas de educação ambiental com conteúdo adaptado à realidade local. Durante os meses de maio e junho, cerca de 900 estudantes de 1ª a 5ª séries aprenderam − através de textos, imagens e atividades propostas − sobre a interferência do ser humano na natureza e porque é importante conservar o meio ambiente.

A coordenadora pedagógica de 1ª a 5ª série, Valdirene Dietrich, diz que o material é usado para complementar o conteúdo dos livros didáticos. Segundo Valdirene, todo trabalho desenvolvido pelas escolas nesse sentido começa pelos “pequenos” para que levem os ensinamentos para casa. “Minha filha estuda em escola municipal. Ela reclamou que o pai jogou papel para fora do carro durante uma viagem. Acredito que o trabalho deu resultado.”


De acordo com a servidora, os professores dizem que tem seu trabalho facilitado. “As apostilas incentivam a observação no caminho entre a casa das crianças e a escola e a jogar o papel do lanche no lixo.” Valdirene afirma que a prefeitura está trabalhando junto ao comércio e às empresas do município para a instalação de lixeiras coloridas, usadas na coleta seletiva, para que o trabalho de conscientização seja mais efetivo.

Antes da chegada das apostilas, que também abordam educação para o trânsito, empreendedorismo e turismo, a educação ambiental era trabalhada em sala quando surgiam temas relacionados ao meio ambiente no material didático, caso os alunos tivessem dúvidas ou em projetos feitos pelas professoras regentes.



No final de 2007, a Fundação Municipal de Cultura organizou uma competição entre as escolas municipais. Cada uma devia decorar seu bairro com enfeites de Natal produzidos com materiais recicláveis. “O importante foi conscientizar a comunidade para a importância de reutilizar”, diz a professora Márcia Regina da Silva Pinheiro, na época diretora da Escola Básica Municipal Nair Rebelo dos Santos, localizada no bairro Vila Nova.

Alunos de escola estadual também reutilizam materiais

Alunos da Escola de Educação Básica Tiradentes
simulam o julgamento de um crime ambiental.
(Soleci da Silva Ferreira)
Como parte da rede estadual de ensino, a Escola de Educação Básica Tiradentes une diversas matérias na Educação Ambiental. Em 2009, enquanto alunos aprendiam a transformar o óleo de cozinha em sabão, a professora de Matemática aproveitou para ensinar a pesar e calcular preços. Durante a aula de Artes, os alunos fizeram maquetes de monumentos com materiais recicláveis, principalmente poliestireno, mais conhecido como isopor. Além disso, foi apresentado um teatro simulando o julgamento de um crime ambiental.

Em 2007, o Clube de Ciências Profª Getulina Samagaia transformou fantasias de Carnaval em brinquedos. Eles foram doados a crianças pobres do Sertão do Valongo, comunidade quilombola de Porto Belo. Antes, participantes do clube montaram computadores com peças em bom estado e os entregaram para a mesma comunidade.

Para o arquiteto Amilcar Bogo, especialista em sustentabilidade, a reciclagem pode ser entendida errado e se tornar um incentivo ao consumo. “Às vezes os professores propõe uma competição. ‘Vamos ver quem recicla mais lata de alumínio?’ Para ter mais material para reciclar, a criança pede que a mãe compre mais refrigerante e o pai tome mais cerveja.” Antes da reciclagem, deve-se reduzir o consumo e reutilizar o produto.


A palavra dos especialistas e o que diz a lei

Segundo o consultor em Educação Ambiental Fábio Deboni, no texto “Debatendo alguns mitos e chavões da Educação Ambiental (EA) Brasileira”, “ainda prevalece no Brasil uma visão de Educação Ambiental voltada apenas a questões comportamentais dos indivíduos. Foca-se em atividades voltadas a ‘ensinar’ comportamentos ‘ecologicamente corretos’, à luz de uma visão prescritiva de EA (como um médico que passa uma receita do que o paciente deve tomar)”.

Para Deboni, ensinar Educação Ambiental significa fazer o aluno refletir sobre suas atitudes. De certa forma, a Política Nacional de Educação Ambiental (lei 9.795/99) guia os professores nessa direção, porque se deve considerar “a interdependência entre o meio natural, o sócio-econômico e o cultural, sob o enfoque da sustentabilidade”.

A lei também busca “o desenvolvimento de uma compreensão integrada do meio ambiente em suas múltiplas e complexas relações, envolvendo aspectos ecológicos, psicológicos, legais, políticos, sociais, econômicos, científicos, culturais e éticos”. Por isso, “a educação ambiental não deve ser implantada como disciplina específica”.